A Ginga da Liberdade
 

Mistura inquietante entre dança e luta, música e violência, a capoeira cresceu entre os escravos negros brasileiros como forma de expressão, libertação e, sobretudo, de defesa.

Originários de diferentes nações, com diferentes línguas, religiões e experiências, os escravos viram-se obrigados a desenvolver um novo meio de se expressar, criando uma manifestação cultural que misturava as origens africanas ou indígenas às mudanças sofridas pela colonização branca.

A capoeira é uma luta, sim, mas acaba disfarçando a violência e a capacidade de se destruir o adversário através da dança e no ritmo da cantoria que geralmente evoca o trabalho. Antigamente camuflava-se o real intuito da luta dos feitores e policiais, e o escravo lutava realmente para sua própria defesa, já que não podia ter recursos como armas e munições.

A defesa é realizada com o próprio corpo, usando a ginga e a velocidade da dança que já traziam da África em sua cultura. A grande curiosidade é que misturam-se à dança várias coreografias que imitam o uso de instrumentos de trabalho, como o martelo, a foice, a enxada, dando origem a vários golpes com funções semelhantes às dessas ferramentas. Também se utiliza bastante o método de defesa dos animais: a marrada, a patada felina, a pancada seca com o rabo e até coices. Assim, não se pode negar que o sistema de golpes da capoeira foi elaborado com extrema eficácia, mas que na realidade são adaptados muito mais à defesa do que ao ataque. O objetivo final da luta não era derrotar o adversário, mas sim imobilizá-lo para poder fugir. A meta final da capoeira era, assim como pretende ser ainda hoje, a liberdade.

Os sons da capoeira, bem conhecidos de todo o mundo pelo berimbau, os atabaques e o canto, são próprios da estrutura da dança. Esse ritmo acabou ganhando um papel fundamental na resistência à escravidão, contribuindo para a união cultural entre os líderes e seus grupos. Com a fusão de diversos grupos, foi possível levantar força suficiente para a formação dos quilombos e sua defesa. Destruir esses redutos parecia ser impossível; só se conseguiu eliminá-los quando os exércitos de brancos investiram no ataque mais pesado, usando armas um tanto mais poderosas que a agilidade dos lutadores, como escopetas e canhões leves.

A capoeira sempre foi tida como símbolo de criminalidade durante no período colonial, rótulo que continuou durante a República Velha e permaneceu até pouco tempo atrás. Logo depois da abolição da escravatura, chegava às cidades um número enorme de negros profissionalmente desqualificados. Na verdade, todos estavam socialmente desamparados e foram marginalizados imediatamente, fazendo com que passassem a habitar guetos miseráveis agrupados na periferia das cidades. Famintos e humilhados, não demorou para emergirem como assaltantes e ladrões, que já traziam a capoeira desde a cultura anterior, do tempo da escravidão. Assim, espontaneamente, surgiram as maltas capoeiristas mais perigosas, integradas pelos componentes marginais do meio urbano. Mas além do assalto e de outras atividades criminosas, os praticantes da luta também a utilizavam para trabalhos extras, como defesa de terceiros -- atividade em que serviam de guarda-costas.

A nova facção criminosa de luta logo teve resposta do governo, que no início do século declarou que todos os praticantes podiam ser considerados criminosos. A pena seria a prisão do infrator à Ilha de Fernando de Noronha. Tais atitudes do governo apenas contribuíram para o aperfeiçoamento da luta, na medida em que se viu obrigada a desenvolver técnicas mais aprimoradas, para disfarçar as rodas de capoeira dos meios públicos. A situação de marginalidade dos adeptos persistiu até 1937, quando Getúlio Vargas acabou abolindo legalmente o caráter criminoso da luta. Na verdade, isso foi apenas um ato político, pois era claro que nada vinha sendo feito contra a discriminação social preconceituosa em relação aos jogadores.

Só mais tarde a capoeira pôde ser reconhecida como esporte. O responsável pela inserção da luta na cultura esportiva foi Mestre Bimba, que a inscreveu no Centro de Cultura Física Regional, em Salvador. A luta oficializada era da forma adaptada ao chão, com movimentos mais acrobáticos, que acabou sendo denominada Angola. No entanto, a estrutura permanecia a mesma: a dança gingada e a mesma maneira de encarar o adversário. Outras facções foram sendo criadas, cada uma com um conjunto diferenciado de gestos e ritmos.

Mesmo depois de organizada diante das exigências sociais, a capoeira ainda ocupava um espaço de discriminação na comunidade, e demorou muito até se transformar no folclore que é hoje assistido em apresentações populares nas cidades.

Com a decisiva entrada norte-americana no mundo oriental após a II Guerra Mundial, os EUA passaram a disseminar as artes marciais através de meios de comunicação. Emergiu, então, uma moda de filmes, jogos, figurinhas e HQs de judô, kung-fu, caratê e outras lutas orientais, que o público digeriu em doses cavalares.

A enchente cultural norte-americana veio em plena mobilização política de estudantes e trabalhadores intelectuais dos anos 60. A reação desses grupos foi imediata, fazendo ressurgir a capoeira com mais força ainda, agora na forma de protesto vivo contra a influencia norte-americana nos costumes brasileiros. Era o fim da característica primária de luta pela sobrevivência básica.

A partir daí, a capoeira tornou-se praticamente o que é hoje: praticada por milhares de jovens em todo o país, reconhecida como esporte e organizada em campeonatos. Com a diferença de que atualmente os jogos perderam o aspecto político para ganhar a condição de um esporte, como outro qualquer.

Tão viva quanto firme em seu caráter resistente na busca pela liberdade, a capoeira ainda persiste e ganha mais adeptos, de certa forma chegando até a virar moda. O que se acredita é que a luta tem adquirido gradativamente o respeito merecido para contrabalançar suas origens. E a liberdade... até hoje é a principal evocada no canto e nos gestos de sua ginga expressiva.